7. Papéis de gênero

Chamamos de papel de gênero o conjunto de estereótipos e práticas sociais culturalmente naturalizados à figura masculina e/ou feminina. Ao longo da história, as várias sociedades criaram seus próprios papéis de gênero e, de modo geral, qualquer mudança nessas relações enfrenta grande resistência social. Em grande parte, essa resistência se deve a uma tendência que temos de entender práticas culturais como naturais. Mas a maior barreira contra a mudança nas relações entre grupos sociais é o fato de privilegiados se recusarem a reconhecer a injustiça em que grande parte da sociedade vive. No caso das relações de gênero, a grande questão é a imposição da vontade masculina sobre a população feminina, ou seja, o machismo.

Hominídeos primitivos provavelmente tinham organização social muito próxima a dos grandes primatas, vivendo em bandos cuja liderança era ocupada pelo mais forte, fosse macho ou fêmea. Exceto pela gravidez e amamentação, não havia diferença de função entre machos e fêmeas, já que as condições de sobrevivência e a capacidade técnica exigiam que todos os membros do bando procurassem alimento e ajudassem na proteção. Evidências sugerem que, talvez durante ataques de predadores ou bandos rivais, os machos assumissem uma posição de defesa mais adiantada, enquanto as fêmeas ficassem dentro do círculo, protegendo os filhotes.

A primeira divisão significativa de tarefas por gênero surgiu quando o homem passou a caçar animais maiores e características como explosão muscular e destreza manual se tornaram essenciais. Aos homens coube a tarefa de caçar, enquanto as mulheres faziam a coleta de alimentos vegetais, cuidavam dos filhos, preparavam o alimento e faziam a manutenção do acampamento. Sociedades caçadoras-coletoras tinham grande respeito pela figura feminina. Além de garantir a sobrevivência da tribo, entendia-se que a mulher tinha um vínculo espiritual natural com a terra, uma vez que dela brotava a vida. Em geral, cabia a uma mulher o papel de espírito da tribo ou oráculo, que fazia a interpretação dos sonhos e a comunicação com os espíritos.

Não se sabe o momento exato em que mulheres, na condição de esposas ou filhas, passaram a ser entendidas como parte do patrimônio masculino. O que parece ter começado como uma prática para proteção, tanto das mulheres quanto da própria tribo, em algum momento se tornou uma relação de posse, muito provavelmente, quando se percebeu a relação entre sexo e gravidez. O destino das mulheres passou a ser decidido entre os homens e relações de casamento se tornaram acordos políticos e econômicos entre tribos e famílias. Gradualmente, as funções espirituais e de liderança também passaram a ser exercidas por homens. O desenvolvimento da agricultura e a conseqüente sedentarização consolidaram essa ascensão masculina, uma vez que as mulheres passaram a ter suas atividades restritas ao espaço das casas.

 

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